Cetonas exógenas no endurance: por que a promessa ainda está na frente das provas
Nos últimos anos, “cetonas” deixaram de ser assunto de livro de bioquímica e viraram produto de prateleira para endurance. A promessa é simples (e poderosa): elevar β-hidroxibutirato (βHB) no sangue sem dieta cetogênica, “desbloquear” um combustível alternativo, poupar glicogênio, reduzir lactato, melhorar foco — e, no fim, render mais.
Marcas como Ketone-IQ (um precursor de cetonas) e deltaG/Delta (um éster de cetona) existem exatamente nesse ponto de encontro entre ciência, performance e marketing. O problema é que, quando você olha com calma para os ensaios clínicos e para as revisões sistemáticas/meta-análises, a conclusão é bem menos empolgante: as cetonas no sangue sobem de forma consistente, mas o desempenho não melhora de forma consistente.
Este texto é um guia direto e “copiável” para um blog científico: o que são cetonas exógenas, o que a fisiologia sugere, e o que os melhores dados humanos realmente mostram.
1) O que são “cetonas” e o que significa “cetonas exógenas”
O corpo produz corpos cetônicos (principalmente βHB e acetoacetato) quando o carboidrato está baixo ou quando há maior predominância de oxidação de gordura (por exemplo: jejum, restrição de carbo, alguns cenários de exercício prolongado). Esse estado é chamado de cetose endógena.
Cetonas exógenas são suplementos projetados para elevar βHB no sangue por ingestão, tentando simular parte desse estado sem que o atleta precise “virar low-carb” ou ficar em jejum.
Aqui entra um ponto crucial: “cetona” no rótulo pode significar químicas diferentes, e isso muda completamente o efeito:
- Ésteres de cetona: geralmente elevam βHB mais alto e mais rápido. Porém, são famosos por sabor difícil e por efeitos gastrointestinais em parte dos usuários, além de possíveis alterações acid–base dependendo do protocolo.
- Sais de cetona (βHB + minerais): em geral elevam βHB mais modestamente e podem adicionar carga mineral; há estudos mostrando piora em desempenho, especialmente em intensidades mais altas.
- Precursores (ex.: (R)-1,3-butanediol): são convertidos pelo fígado em cetonas. É a lógica por trás do Ketone-IQ, que descreve seu produto como “ketone diol” (R-1,3-BDO).
Por isso, um resultado obtido com “ketone ester” não se transfere automaticamente para “ketone salts” ou “ketone precursors”. Misturar tudo como se fosse a mesma coisa é um erro comum — e conveniente para o marketing.
2) Onde entram Ketone-IQ e Delta/deltaG (o que cada um vende)
Ketone-IQ: é comercializado como um precursor (R-1,3-butanediol / ketone diol). Em listagens comerciais, aparece frequentemente como 35 mL por dose contendo 10 g de R-1,3-BDO, com foco em elevar cetonas via conversão hepática.
deltaG / Delta: comercializa um éster de cetona, com rotulagem indicando 25 g de “ketone ester” por frasco (59 mL) e promessa de “rapid ketosis” e benefícios para performance/recuperação.
O ponto é simples: essas descrições explicam o mecanismo de elevar cetonas, mas não provam melhora confiável de performance.
3) A fisiologia parece plausível… mas performance é outra conversa
Em teoria, elevar βHB poderia:
- fornecer um substrato oxidativo adicional;
- alterar seleção de combustível (mais gordura/cetona, menos glicólise);
- reduzir lactato em certos contextos;
- “poupar” glicogênio em esforços prolongados.
Essa plausibilidade ganhou força com um estudo de 2016 que sugeriu melhora em um cenário específico com éster + carboidrato.
O problema é que endurance competitivo raramente é “bioquímica pura”. Performance real depende de fatores que derrubam ganhos teóricos:
- desconforto gastrointestinal (GI) suficiente para piorar o pace/potência;
- alterações acid–base (que podem prejudicar intensidade alta e sprint final);
- protocolo (dose, timing, co-ingestão de carboidrato, tipo de teste);
- amostras pequenas, alta variabilidade individual e dificuldade de cegamento (o atleta frequentemente “sabe” quando tomou).
Ou seja: um marcador metabólico “bonito” no sangue não garante melhor cronômetro.
4) O que as melhores revisões e meta-análises concluem
Quando você sobe um nível (do estudo isolado para a evidência agregada), o quadro fica mais claro.
Meta-análise (2020): uma revisão sistemática com meta-análise avaliou ensaios controlados e concluiu que cetonas exógenas agudas não têm efeito significativo consistente sobre performance, apesar de elevarem βHB de forma confiável. Em outras palavras: a intervenção faz o que promete no sangue, mas não entrega o que promete no desempenho.
Revisão sistemática (2020): outra síntese destacou predominância de resultados nulos (sem melhora), com alguns positivos e alguns negativos, e reforçou a grande heterogeneidade entre produtos e protocolos.
Para um blog científico, a frase-chave é: até aqui, não existe base robusta e reproduzível para tratar cetonas exógenas como ergogênico comprovado no endurance.
5) Estudos mostrando piora (e por que isso pesa contra o uso)
Alguns resultados não são apenas “sem efeito”. São pior desempenho, o que muda a lógica do risco-benefício.
- Em ciclistas profissionais, um di-éster elevou cetonas, mas piorou o time trial (~2%), associado a desconforto GI e maior percepção de esforço.
- Em homens saudáveis, sais de cetona aumentaram oxidação de gordura, mas reduziram potência de time trial (~7%).
Para endurance competitivo, isso importa muito: mesmo que um atleta “responda” metabolicamente, o risco de GI ou queda de potência pode anular qualquer vantagem teórica. Sem evidência forte e replicada de ganho, a aposta fica difícil de justificar.
6) “Mas existe estudo positivo?” Sim — e esse é exatamente o problema
Existe um estudo clássico (2016) sugerindo benefício em protocolo específico com éster + carboidrato. Ele impulsionou o campo e o hype.
Só que a ciência não vive de “um estudo que deu certo”. Vive de replicação e de efeito médio consistente em diferentes grupos e condições. Quando os estudos posteriores entram na conta, o padrão vira inconsistência e efeito médio ~zero nas meta-análises.
Em termos práticos: há sinais pontuais, mas não há robustez para dizer que “está comprovado” para performance e endurance.
7) O que a UCI declarou (sinal forte no mundo real)
Em 2025, a UCI (União Ciclística Internacional) publicou uma declaração pública dizendo que não vê evidência convincente de melhora de performance ou recuperação e, por isso, não recomenda a inclusão de cetonas em planos nutricionais de atletas.
Isso não é um artigo científico, mas é um indicador importante do consenso aplicado: quando uma entidade que vive de “marginal gains” diz “não há prova convincente”, vale prestar atenção.
8) Segurança e status regulatório: “GRAS” não é “funciona”
Duas observações rápidas:
- Segurança ≠ eficácia. Mesmo que um ingrediente seja permitido/avaliado para uso alimentar, isso não prova que melhora performance.
- Para alguns ingredientes, o histórico regulatório é mais complexo do que o marketing sugere.
- Para (R)-1,3-butanediol (R-1,3-BDO) — relacionado ao conceito de precursor usado em produtos como Ketone-IQ — existe uma carta da FDA sobre o GRN 1165 em que a agência cessa a avaliação do aviso GRAS e descreve preocupações: insuficiência de dados para suportar segurança nos usos pretendidos, relatos de sintomas adversos em estudos de tolerância humana (por exemplo: dor de cabeça, tontura/euforia, náusea e desconforto GI) e margem de segurança inadequada nas exposições estimadas.
- Para um éster de D-β-hidroxibutirato (GRN 515), a FDA registra carta de “no questions” para o aviso GRAS em uso alimentar em categorias como barras/géis/bebidas — novamente, isso fala de uso alimentar, não de performance.
Conclusão prática (e cientificamente defensável)
- Cetonas exógenas elevam βHB no sangue de forma previsível.
- A melhora de performance em endurance/performance NÃO é consistente: meta-análises e revisões apontam efeito médio nulo e alta heterogeneidade.
- Há risco real de piora (GI, percepção de esforço, queda de potência) dependendo do produto e do protocolo.
- Portanto, hoje, a posição mais honesta é: não existem evidências robustas e replicadas suficientes para afirmar que cetonas exógenas “comprovadamente” melhoram performance no endurance, apesar do marketing sugerir o contrário.
Referências (bibliografia)
- Valenzuela PL, Morales JS, Castillo-García A, Lucia A. Acute Ketone Supplementation and Exercise Performance: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. International Journal of Sports Physiology and Performance. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32045881/
- Margolis LM, O’Fallon KS. Utility of Ketone Supplementation to Enhance Physical Performance: A Systematic Review. Advances in Nutrition. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31586177/
- Leckey JJ, Ross ML, Quod M, Hawley JA, Burke LM. Ketone Diester Ingestion Impairs Time-Trial Performance in Professional Cyclists. Frontiers in Physiology. 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29109686/
- O’Malley T, Myette-Cote E, Durrer C, Little JP. Nutritional ketone salts increase fat oxidation but impair high-intensity exercise performance in healthy adult males. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism. 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28750585/
- Cox PJ, et al. Nutritional Ketosis Alters Fuel Preference and Thereby Endurance Performance in Athletes. Cell Metabolism. 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27475046/
- UCI. UCI declaration concerning the use of ketone supplements by cyclists. 2025. Disponível em: https://www.uci.org/pressrelease/uci-declaration-concerning-the-use-of-ketone-supplements-by-cyclists/i4RNiOalWYxGqYtQ6h2rt
- U.S. Food and Drug Administration (FDA). GRAS Notice (GRN) 1165 — Agency Response Letter (R-1,3-butanediol). Disponível em: https://www.fda.gov/media/187776/download?attachment=
- FDA — GRAS Notice Inventory. GRN 515 (D-beta-hydroxybutyrate ester). Disponível em: https://www.hfpappexternal.fda.gov/scripts/fdcc/index.cfm?id=515&set=GRASNotices
- deltaG Ketones. △G Ketone Performance — Supplement Facts / product page. Disponível em: https://www.deltagketones.com/products/g-ketone-performance
- Ketone.com (Ketone-IQ / HVMN). Product pages describing R-1,3-BDO (“ketone diol”) positioning. Disponível em: https://ketone.com/products/ketone-ester
- iHerbPlus (listagem comercial). Ketone-IQ — porção 35 mL contendo 10 g de R-1,3-BDO. Disponível em: https://iherbplus.com/products/ketone-iq-ketone-iq-10-g-12-fl-oz-355-ml-113828