Creatina faz mal para os rins? O que a ciência realmente mostra

A creatina eleva a creatinina do sangue — mas isso reflete o metabolismo do suplemento, não lesão renal. O que meta-análises e o posicionamento da ISSN dizem sobre creatina e função dos rins em pessoas saudáveis.

Poucas frases são repetidas com tanta convicção nas academias e nos grupos de corrida quanto "creatina sobrecarrega os rins". É provavelmente o mito mais teimoso da suplementação esportiva. E, depois de mais de duas décadas de pesquisa em pessoas saudáveis, ele continua sem sustentação.

De onde nasce a confusão

O mito tem uma origem quase compreensível. A creatina que você ingere é metabolizada no corpo e transformada em creatinina — exatamente o marcador que os laboratórios usam para estimar a função dos rins. Quem suplementa creatina (e quem tem mais massa muscular) produz mais creatinina e, portanto, pode apresentar um valor um pouco mais alto no exame de sangue.

O problema é a interpretação. Uma creatinina levemente elevada, nesse contexto, não significa que o rim está filtrando pior. Significa que há mais creatina no sistema sendo convertida em creatinina. É metabolismo do suplemento, não lesão.

Creatinina alta não é o mesmo que dano renal

A taxa de filtração glomerular estimada (a famosa eGFR) é calculada a partir da creatinina. Quando a creatinina sobe por causa da suplementação, a eGFR calculada pode parecer mais baixa — sem que a capacidade real de filtração tenha mudado. Quando a filtração é medida por métodos diretos, e não estimada pela creatinina, ela se mantém normal em pessoas saudáveis.

O medo também se apoia em pouquíssimos relatos de caso isolados, envolvendo pessoas com condições prévias ou outros fatores. Relatos isolados geram hipóteses; não estabelecem causa. E os estudos controlados que vieram depois não confirmaram esse risco na população saudável.

O que a evidência acumulada mostra

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Renal Nutrition (de Souza e Silva et al., 2019) reuniu estudos com doses de 4 a 20 g/dia, por períodos que iam de poucos dias a cerca de dois anos. A conclusão foi direta: a suplementação de creatina não induziu dano à função renal em pessoas saudáveis, sem efeito adverso relevante sobre creatinina sérica, clearance de creatinina/filtração glomerular ou ureia.

O posicionamento oficial da International Society of Sports Nutrition (Kreider et al., 2017) é ainda mais categórico: "não há evidência científica convincente de que o uso de creatina monohidratada a curto ou longo prazo (até 30 g/dia por 5 anos) tenha qualquer efeito prejudicial em indivíduos saudáveis".

A revisão de misconceptions da mesma sociedade (Antonio et al., 2021) reforça o ponto e derruba de passagem outros mitos: nas doses recomendadas, a creatina não causa disfunção renal em indivíduos saudáveis, não provoca desidratação nem cãibras (há dados sugerindo até menos cãibras), e não aumenta DHT nem causa queda de cabelo.

Na prática

VariávelRecomendação baseada em evidência
Dose de manutenção3–5 g/dia de creatina monohidratada
Fase de saturaçãoOpcional; não é necessária para o benefício
Exame de sangueAvise médico e laboratório que você suplementa
Doença renal pré-existenteConverse com o médico antes de suplementar

Um ponto importante e honesto: nada disso é conselho médico individual. A evidência tranquilizadora se refere a pessoas saudáveis. Quem já tem doença renal ou fatores de risco deve individualizar a decisão com um profissional. E, ao fazer exames, vale mencionar o uso de creatina para que a creatinina levemente alta seja interpretada corretamente.

O resumo

Em rins saudáveis, a evidência de mais de 20 anos aponta na mesma direção: creatina nas doses usuais não prejudica a função renal. O que ela faz é elevar um marcador — a creatinina — de forma esperada, o que exige apenas interpretação correta do exame, não medo do suplemento.

Referências

  1. de Souza e Silva A, Pertille A, Reis Barbosa CG, et al. Effects of Creatine Supplementation on Renal Function: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Ren Nutr. 2019;29(6):480–488. doi:10.1053/j.jrn.2019.05.004
  2. Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. J Int Soc Sports Nutr. 2017;14:18. doi:10.1186/s12970-017-0173-z
  3. Antonio J, Candow DG, Forbes SC, et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? J Int Soc Sports Nutr. 2021;18(1):13. doi:10.1186/s12970-021-00412-w